domingo, 10 de janeiro de 2010

"VAMOS CA/ONTAR AS JANEIRAS "


Nota Importante:
O texto abaixo publicado está a concurso na blogagem de Janeiro http://www.aldeiadaminhavida.blogspot.com/. Assim, a todos os que gostaram poderão votar. Além da votação de 28 a 31 de Janeiro, a quantidade e qualidade de comentários também contam para a eleição do Melhor Texto. Não hesite, Comente!

**************************************

Foto do Rancho Folclórico de Cortecega

Na sequência da Blogagem de Janeiro no blog-aminhaldeia@sapo.pt, elaborei esta pequena história para contar como se cantava as Janeiras na minha Aldeia. Assim, neste contexto não podia deixar de publicar esta história no meu blog. Espero que gostem.

Janeiras são uma tradição muito antiga que vai passando de geração em geração. Na minha aldeia essa tradição manteve-se até há alguns anos atrás, mas em muitas aldeias de Portugal esta tradição está viva, felizmente!

Bem, vou contar como era no tempo em que vivia na aldeia onde nasci (Cortecega). Existia um grupo folclórico do qual eu fazia parte e por altura dos Reis lá ia-mos nós pedir as Janeiras.
Na noite de Reis, formavam-se dois grupos de pessoas. Um grupo percorria as ruas da aldeia e o outro ia à povoação mais perto (neste caso a Cabreira) indo de casa em casa, cantando e tocando alguns instrumentos, como pandeireta, ferrinhos, tambor, concertina, desejando, assim, um bom ano aos seus vizinhos cantando quadras como estas.

Boas noites, meus senhores
Boas noites vimos dar
Vimos pedir as Janeiras
Se no-las quiserem dar
***
Aqui vimos, aqui vimos
Aqui vimos bem sabeis
Vimos dar as boas festas
E também cantar os Reis

Mas como a porta tarda em abrir-se

Levante-se daí Senhora
Do seu banco de cortiça
Venha-nos dar as janeiras
Ou de carne ou de chouriça
***
Viva lá o Senhor António
Raminho de bem-querer
Traga lá a chave da adega
Venha-nos dar de beber

De uma maneira geral as gentes da casa acediam, e então tinham direito a agradecimento:

As janeiras que nos deram
Deus será o pagador
Queira Deus que para o ano
Nos faça o mesmo favor

Mas também podia acontecer “não haver nada para ninguém”. Então…

Cantemos e recontemos
Tornemos a recontar
Esta barba de farelos
Não tem nada para nos dar

Terminada a canção numa casa, esperava-se que os donos nos dessem as janeiras (castanhas, nozes, maçãs, batatas, carne de porco chouriço, morcela, porque tinha sido altura das “matanças”, etc) . Dinheiro não se dava, mas caso alguém o fizesse era para ajudar a comprar o que faltava paro o almoço de dia de Reis.

No dia de Reis o povo juntava-se no largo da aldeia. Preparava-se a lenha que tinha estado a arder no largo desde a noite de Natal, onde eram colocadas as panelas de ferros onde se cozia a batatas, a carne, as chouriças, dadas na noite anterior. Preparava-se as couves que ainda de noite tínhamos sido (desviadas da horta do vizinho) e em festa todos, bebiam e cantavam. No caso de alguém da terra não ter dado nada aquando do peditório, nós íamos ao galinheiro e (desviava-mos uma galinha), quem pagava as favas era a raposa, pois tinha sido ela que tinha ido a capoeira. A pessoa era convidada para a festa e só tempos mais tarde lhe era dito quem foi à capoeira (era uma rizada).

Era uma confraternização que unia as pessoas e que hoje recordo com saudades. Muitas vezes são tema de conversa quando nos encontramos e revivemos o passado, principalmente no verão, altura de férias.

domingo, 3 de janeiro de 2010

POESIA "SUA FESTA TEM MANTIDO"

Ribeira do Corterredor


Nasci e cresci na Serra


Onde as águas escorrentes


Marcam divisão da terra


Com limites nas vertentes


***

Convivi com suas gentes


D’aquém e d’além serro


Uma maioria de crentes


Na Senhora do Desterro


***

Ao ser feito o desaterro


As Mestras não alertaram


Os Amieiros p’ro erro


Nem a obra embargaram


***

Seu dia não foi esquecido


Fé jamais se apagou


Após o farnel comido


Muita conta se ajustou


***


Ernesto Rosa

domingo, 20 de dezembro de 2009

POEMA

Aldeia das Mestras

A NOVA CAUSOU DESNORTE


V


Nas Mestras ao fundo e a Norte



Era há muito venerada



Senhora da Boa morte



Deixou de ser festejada



A lenda foi praticada



Mas com um pouco de sorte



Creio não foi esborratada



Contudo menosprezada



A nova causou desnorte





Ernesto Rosa

SENTIR A POESIA

Por Adriano Pacheco

Sentir a poesia, é sentir um mundo onde podemos estar próximos do perfeito (ideal) que, de um momento para o outro podemos afastarmo-nos, no mais pequeno deslize. Não vivemos, não caminhamos sozinhos, mas poetizamos sozinhos tal como sentimos o vento de forma solene. Os momentos solenes e poéticos são únicos, raros.

A poesia é a arte de escutar. Ir além da palavra solta e ficar nas sílabas, nos sons, no puro som onde começa a poesia. Chegar aí, é entrar no patamar onde se sente o sussurrar do vento e a erosão mansa do tempo.

Esta experiência humana transportada anos sem fim, aproxima-nos, devagar e às escuras, do horizonte poético mais fundo. Do mais profundo de nós. A seguir temos duas sensibilidades distintas na forma de sentir a poesia. Vejamos:

UM ENTRE TANTOS

***

Sou um, entre tantos

Agarrado neste alvorecer

Labirinto onde me encontro

me enleio e livre me solto

No clarão do amanhecer

***

São sinais de vida e encanto

Num povo que se quer tanto

Paxiano

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O TEMPO NÃO MORRE



Escolhe o teu reino e fica
ao relento
Sobe ao penedo enquanto
navegas
Poisa o olhar no fundo
da ravina
Eleva-te nas ondas do espaço
E observa o tempo de cima

Liberta-te do chão que
te amarra
Num gesto de gratidão
Que o espaço solta, agarra
esquece, ou lembra
O mais belo da solidão

Depois, só o pensamento
viverá contigo
Onde tudo é tão estranho
sem medida nem tamanho
Tempo que não morre, nem...
se liberta vivo

O tempo não morre... não morre
Apenas se consome.

Poema cedido por Paxiano

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

POESIA " DOS CONVIDADOS PRESENÇA"

Hoje começo aqui uma nova etapa neste blogue.

Pois, foi com muito prazer que aceitei publicar aqui alguma poesia escrita por "poetas" desta terra. Pessoas que gostam de escrever aquilo que lhes vai na alma.

Como eu sempre gostei de poesia e também tento escrever qualquer coisa parecida com "poesia" desde pequena, é ainda com maior prazer que passo a partir de hoje a publicar toda a poesia, historias etc...que me queiram mandar e que de uma maneira ou de outra tenham a ver com gentes da nossa terra.


A poesia é um mundo de emoções que fervilha no interior de cada um de nós. Deixar despertar essas emoções, partilha-las com os outros e viver com eles esse mundo de fantasias.

Ler e escrever poesia é uma forma diferente de comunicar, transmitir o que vai dentro da nossa alma e ver/percepcionar o mundo envolvente.

Este poema foi escrito pelo Sr Ernesto Rosa, é um dos vários que o mesmo escreveu sobre o livro " Rasto dos Barrões" de Adriano Pacheco.

I

DOS CONVIDADOS PRESENÇA


Após síntese explana

Pelo senhor Engenheiro

Foi a minha alicerçada

Mote saiu do tinteiro


Havia que ler primeiro

Para de pois escrever

Desmatado o carreiro

Prevendo trilho manter


Não esqueci meu dever

Ao autor pedir licença

Respondeu ser um prazer

Acaso com pouca crença

Dos convidados em presença


Poema de Ernesto Rosa

sábado, 31 de outubro de 2009

"A CASTANHA"

Foto das castanhas nos ouriços
Foto de um Magusto de Castanas
"Retirada do blogue da Aigra Velha "

Sendo esta aldeia conhecida pela boa castanha, todos os habitantes têm os seus castanheiros. Agora é o tempo deste belo e saboroso fruto. Há muitas maneiras de o cozinhar: assadas, cozidas, secas, piladas....

Primeiro, as pessoas vão apanhá-las ainda verdes, espalham-nas no chão do telheiro ou sótão para secarem um pouco, depois são esfoladas, tira-se um bocadinho da casca e cozem-se nas panelas só com água. As que têm casca cozem-se assim simples. Em estando cozidas ou assadas a casca separa-se bem.


Outras são secas nos caniços, são as chamadas castanhas piladas. Pisam-nas com os tamancos, com os pés, em cestos para sair a cascas. A casca sai toda! As castanhas ficavam limpinhas que até pareciam plumas, muito branquinhas. E com essas é que se fazem muitos pratos.

Cozidas só com água e no dia seguinte estão docinhas, é só comer, chamadas as castanhas de caldo. Outras cozem-se com arroz, outras faz-se sopa com feijão. Fazem-se de muita maneira e com muita qualidade. Tem castanhas ao longo do ano todo, porque são guardadas. Só vêem nesta época. Umas são vendidas, pois têm procura e cada vez mais é um produto muito raro. Outras são guardadas. Toda a gente nesta terra tinha muita castanha que se tornava governo para todo o ano. As pessoas tinham e ainda tem para seu consumo a batata, feijão, milho, couve, tomates, cebolas etc.…Mas também outros frutos como as castanhas.

No dia de todos os Santos há o magusto. Cada pessoa da aldeia dá um saquinho de castanhas e no largo comemora-se o magusto. Primeiro uma camada de caruma, depois uma de castanhas, depois outra de caruma, deitava-se o lume e ia-se mexendo e acrescentando mais caruma até estarem assadas, no final o assador com uns ramos de carqueja batia nas castanhas e dizia: amacia, amacia castanha da Ásia, quando eu era casado também a sim fazia.

Todos comem castanhas e bebem a jeropiga ou água-pé e aproveitam para na brincadeira enfarruscar a cara a quem está ao seu lado.

Estes convívios são importantes, pois mantêm o povo unido e não se deixa perder a riqueza das nossas tradições.

Quem tiver fotos dos magustos da nossa terra e queira partilhar com os outros e favor mandar para o meu e-mail eugeniasantacruz1@gmail.com ou eugenia-santacruz@hotmail.com e eu as publicarei neste blogue.