segunda-feira, 8 de março de 2010

ALDEIA ONDE CRESCEU O MEU PAI...

Arlindo Santa Cruz (meu pai)

Escrever algo sobre a aldeia onde o meu pai nasceu não é difícil, pois é das aldeias mais bonitas de Portugal, é a minha aldeia. Mas antes quero falar do maravilhoso ser que era o meu Pai de nome Arlindo Santa Cruz. Nasceu a 17 de Março de 1932, um dos mais novos de sete irmãos. Homem de estatura baixa, lindos olhos azuis, amigo de todos. Para o meu pai tudo estava bem, de um coração do tamanho do mundo, estava sempre pronto a ajudar o próximo, um grande pai.
O meu pai morreu muito novo, mas deixou-me muitas mensagens (valores) que ainda hoje regem a minha vida, uma delas tem a ver com o dia em que saiu de casa para honrar um compromisso e não mais voltou. No dia anterior tinha se comprometido após muita existência por parte de o antigo patrão em o ir desenrascar e acabar umas janelas que só ele sabia fazer, pois era um excelente marceneiro. No dia seguinte, acordou muito doente e a minha mãe disse-lhe:
-Arlindo não vás trabalhar, estás tão doente! Nós cá nos arranjamos sem esse dinheiro.
Ele respondeu:
-Mulher, eu comprometi-me e já o meu pai dizia que vale mais a palavra que o dinheiro e eu quero honrar o meu compromisso.
Foi ao nosso quarto despediu-se dos filhos e prometeu trazer (chaços) rebuçados. Morreu nesse dia, atropelado por uma mota ao regressar do trabalho.

O meu pai, rumou a Lisboa nos anos 40 para trabalhar numa carpintaria no alto de S. João: “CARPINTARIA MELÃO”. Entretanto, como gostava da minha mãe regressou a aldeia para casar. Mais tarde a minha mãe e a minha irmã mais velha vieram ter com meu pai a Lisboa, mas um ano depois regressaram novamente à aldeia. Foi trabalhar para a oficina que se mudou de Lisboa para Góis e ali viveu até dia 30 de Setembro de 1976 dia em que faleceu. Tiveram 6 filhos, quatro rapazes e duas raparigas.

Falar da aldeia de Cortecega, é dizer que é uma aldeia pequenina, situada no interior de Portugal a 4 km da linda vila de Gois, seu concelho, a 40 km da Cidade dos Doutores Coimbra, seu Distrito. Tem o privilégio de estar rodeada de vales e montes verdejantes, casas de Xisto, pintadas de branco, amarelo e azul, ruas e caminhos limpos. O Rio Ceira passa a seus pés com suas águas límpidas e cintilantes. Recebe vem quem a visita. Agora com poucos habitantes. Mas, já teve muita gente, chegou a haver um grupo folclórico com cerca de 30 elementos todos desta aldeia, éramos todos família, porque todos os irmãos/ãs do meu pai casaram com irmãos/ãs da minha mãe, outros casaram com pessoas da terra, assim, mais tarde os seus descendentes era quase tudo família.

A vida nos anos trinta nas aldeias era muito difícil. Os jovens raramente iam a escola, tinham de trabalhar no campo ajudando no cultivo das terras e guardar o rebanho. Às vezes, quando tinham fome, ordenhavam uma cabra e bebiam o leite com a broa que levavam na sacola. Como não havia energia eléctrica na aldeia, tudo era feito à luz da candeia a petróleo. A água era transportada em bilhas que eram enchidas no chafariz da aldeia.
A alimentação nas aldeias baseava-se no feijão, grão, batata, hortaliça e pão, trigo e milho que eram produzidos pelos próprios habitantes. A carne de galinha e de porco que criavam durante o ano eram as carnes mais consumidas.
Usavam roupa às vezes com remendos, andavam descalços ou usavam botas fortes, feitas nos sapateiros da aldeia, com sebo para não molhar os pés quando ia para o mato ou para o campo. Tinham que ir apanhar mato para pôr nos currais dos animais e depois tiravam o estrume para fertilizar as terras. Era assim a vida nas aldeias onde viveu o meu pai.

Os seus habitantes foram sempre muito unidos. São estes que ainda hoje tudo fazem para que a sua terra tenha as condições necessárias para receber bem quem a visita. Foi construída uma hospedaria “HOSPEDARIA TREPADINHA” com a força vontade e muito trabalho, (pode consultar as fotos no meu Blog). Ao longo do ano são realizados vários encontros, sempre com almoços e festa. As mais relevantes são Festa de N. S. das Neves no primeiro fim-de-semana de Agosto, o Almoço da Amizade em Março/Abril, os Motardes em Agosto, encontro de concertinas e almoço das vindimas em Outubro entre outros.

E, assim fiz um pequeno texto retratando um pouco a aldeia onde nasceu e cresceu o meu pai.
Eugénia Santa Cruz

http://cortecega-eugeniasantacruz.blogspot.com/

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